COMPARTILHANDO NOSSO CONCEITO DE EDUCAÇÃO

Para nós do nodo Educação Socioambiental e Pedagogias Próprias, educar significa compartilhar com alguém, ou com um grupo de pessoas, por meio de vários meios e estratégias, as formas como vemos e conhecemos o mundo e os seus fenômenos (sejam eles naturais e/ou espirituais). Assim, os nossos conhecimentos não são construções isoladas, de um único ser, mas também atreladas às atividades culturais, nas quais transitamos, sendo, portanto, construções sociais e, ao mesmo tempo, individuais, da compreensão da relação com o outro e com os objetos, das nossas reflexões e significações das existências.

Entre os diversos modos de conhecer e explicar o mundo, temos os da ciência ocidental e de outros sistemas de conhecimento, como os das comunidades tradicionais. Da ciência ocidental, os conhecimentos e práticas são compartilhados pelas comunidades científicas ao longo dos anos, iniciados na Europa do século XVII e que se expandiu pelo resto do mundo durante os períodos de colonização, trazendo muitos benefícios para a humanidade, como nos campos da saúde, transporte e comunicações, mas também, usurpação, sofrimento e perdas, especificamente aos povos da Abya-Yala. Inicialmente com o genocídio indígena e com os povos afrodescendentes que aqui especificamente na América latina foram escravizados, com a ideia de que ficaram presos na história, eram «selvagens e incultos» e, portanto, seria necessário «civilizá-los e educá-los», nos moldes Europeu, sem respeito alguma às suas tradições culturais, que lhes garantiam e ainda lhes garante as suas existências e proteção do patrimônio biocultural da nossa América Latina.

Hoje, muitas escolas que foram instaladas desde os períodos das colonizações têm ações cientificistas, decorrentes de uma ideologia que tem superioridade na ciência ocidental, desconsiderando e/ou anulando todos os demais sistemas de conhecimento nos processos educativos. Contudo, também é fato, algumas comunidades tradicionais resistiram aos ataques dos colonizadores e ainda resistem à pedagogia cientificista, quando mesmo frequentando os espaços escolares mentem as suas tradições culturais, os seus modos de viver e de se relacionar com a natureza do seu entorno, transmitindo aos seus descendentes, durante várias gerações, conhecimentos e práticas.

No entanto, outras comunidades, consideradas locais por não manterem seus modos de vida exclusivamente dentro das tradições culturais de seus ancestrais, vêm recebendo cada vez mais influência dos processos de globalização, que exaltam os interesses econômicos de grandes indústrias com a exploração dos biomas, frequentemente marginalizando, expulsando e em alguns casos induzindo as pessoas a deixarem suas terras em busca de empregos assalariados nas grandes cidades, levando ao esgotamento dos recursos naturais, desequilíbrio ambiental, pobreza, miséria e conflitos sociais, entre outros.

Objetivos

Logicamente, para reverter esse quadro, são necessárias mobilizações de pessoas para formar grupos que criem e defendam a existência de diferentes perspectivas educacionais, que possuem pedagogias específicas aos seus diversos grupos socioculturais, que possam contribuir fortemente para novas abordagens e práticas pedagógicas nos nossos países Latino-americanos, cujos desejos imperativos são, ou deveriam ser, colaborar no desenvolvimento e ampliação dos pensamentos e, consequentemente, ações em favor da diversidade biológica (biodiversidade) e dos conhecimentos tradicionais.  

Assim, o nodo Educação Socioambiental e Pedagogias Próprias, tem o objetivo mais amplo de incentivar e promover a disseminação dos saberes e práticas das comunidades tradicionais, que são construídos em seus processos educativos, decorrentes de suas relações socioambientais. De forma complementar, promovem a solidariedade, a criatividade, a afetividade, o reconhecimento e a valorização das suas identidades tendo por base as suas próprias visões e valores.

Portanto, reconhecendo a existência de diferentes formas de conhecer e transitar de conhecimentos entre as sociedades e suas culturas, o objetivo deste nodo é também a divulgação de trabalhos que apresentem a interculturalidade de saberes e práticas através de diálogos em prol da ampliação das visões de natureza dos povos, reconhecendo, respeitando e valorizando as diferenças culturais em seus contextos; ao contrário do que foi promovido no passado histórico através das colonizações e ainda acontece em muitas sociedades, quando as representações são silenciadas ou são feitas tentativas de anulação dos saberes e práticas tradicionais. Dessa forma, entendemos que é necessário unir esforços em movimentos para disseminar as experiências e histórias de vida dos atores dos saberes tradicionais e ancestrais de forma dialética, em conjunto com o conhecimento científico, pois segundo Freire (1996), a emancipação dos seres humanos passa pelo seu desenvolvimento crítico e isso requer o compartilhamento de experiências.

Para Gadotti (2000), esse compartilhamento não poderia ser reprodutor do conhecimento, mas problematizador, para que o conhecimento possa coexistir em suas diferenças no plano educacional e numa perspectiva dialógica, embora conflitos possam acontecer. O papel do educador será sempre um mediador cultural, negociando significados, contextos de aplicabilidade, de melhores respostas aos problemas levantados.

Significa a união na direção da organização de um grupo composto por membros de comunidades tradicionais em um trabalho colaborativo e participativo com a comunidade acadêmica, que considera os saberes e práticas não como superiores, inquestionáveis e universais, mas possíveis de diálogo horizontal. Um grupo capaz de realizar análises críticas sobre determinadas situações, saberes e práticas, as suas consequências, bem como fazer escolhas e tomar decisões que permitam as mudanças necessárias, e de forma autônoma a favor da proteção do patrimônio biocultural, considerando que toda cultura é dinâmica.

Em síntese, esperamos promover a educação intercultural, que possa contribuir para a ampliação de saberes e práticas coletivas, a partir da inserção das experiências culturais e numa perspectiva inter e transdisciplinar, que se dá por meio de esforço colaborativo e diálogo intercultural. Assumimos o compromisso de trabalharmos juntos, ações que contribuam para a educação dos povos tradicionais, que deem conta de suas difíceis realidades nos espaços formais, não formais e informais, impulsionado pelas abordagens eurocêntricas e científicas que são movidas pelos ideais da globalização e neoliberalismo. Defendemos e respeitamos uma visão plural da educação, tanto para a educação ocidentalizada quanto para os povos étnicos; liberdade de escolha, de representação do pensamento, respeitadora de saberes e ações diretamente vinculadas ao patrimônio biocultural da América Latina, por meio do uso de diferentes linguagens.

Bibliografía Básica

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